Uma operação deflagrada pela Polícia Civil do Paraná (PCPR) nesta sexta-feira, 18, revelou uma estrutura que, segundo as investigações, utilizava Maringá como base para o transporte de grandes carregamentos de drogas e armas destinados a criminosos do Rio de Janeiro. O esquema envolvia uma família, empresas de fachada, caminhões, veículos usados como “batedores” e movimentações financeiras milionárias.
Ao todo, 10 pessoas foram presas durante a operação, que cumpriu ordens judiciais em três estados. Outras quatro pessoas não foram localizadas e são consideradas foragidas — entre elas, o filho mais velho do principal investigado e três traficantes do Rio de Janeiro. Também foram apreendidos quatro veículos, celulares, documentos e R$ 6,5 mil em dinheiro.
A Justiça autorizou ainda o bloqueio de 21 contas bancárias e aplicações financeiras, até o limite de R$ 10 milhões, além de medidas para apreensão de 19 veículos.
A ação ocorreu em Maringá, Foz do Iguaçu, São Miguel do Iguaçu e Santa Terezinha de Itaipu, no Paraná, além de endereços nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A investigação aponta, porém, que Maringá ocupava uma posição central na logística do grupo, que atuava no eixo entre o Oeste do Paraná, a região de Maringá, Curitiba e o Rio de Janeiro.
Investigação começou após prisão de operador logístico
As investigações começaram em fevereiro de 2026, a partir do compartilhamento, autorizado pela Justiça, de provas obtidas durante a prisão de um traficante em dezembro de 2025. De acordo com o delegado da PCPR Victor Loureiro Mattar Assad, esse homem era considerado um grande operador logístico e mantinha ligação com outro integrante que atuava a partir de Maringá.
Com a prisão do primeiro investigado, o homem que já operava na região teria assumido a cadeia logística e passado a fazer contato diretamente com criminosos de outros estados para manter o envio das cargas. Segundo o delegado, o grupo tinha como destino, principalmente, comunidades do Rio de Janeiro, incluindo regiões como o Complexo do Alemão e a Maré.
“O aprofundamento das investigações revelou que, com aquela prisão, a lacuna operacional foi imediatamente absorvida por outro indivíduo”, explicou Assad.
Ainda conforme a investigação, o principal alvo da operação teria chegado a Maringá utilizando uma identidade falsa. Na cidade, teria aberto uma empresa de transporte e adquirido caminhões que eram utilizados tanto em atividades lícitas quanto, segundo a polícia, no transporte de drogas e armas.
Caminhões levavam cargas lícitas e drogas escondidas
A investigação aponta que o grupo utilizava a própria estrutura de transporte para esconder os materiais ilícitos. Drogas e armas eram colocadas em meio a cargas lícitas transportadas pelos caminhões. O deslocamento ainda contava com veículos “batedores”, que seguiam à frente das carretas para monitorar a presença de equipes policiais nas rodovias.
Segundo a PCPR, os investigados cobravam entre R$ 400 mil e R$ 500 mil por transporte. A estimativa é de que fossem realizadas remessas pelo menos uma vez por semana. “Eles tinham um aparato técnico, tinham caminhões de grande volume de transporte, sabiam operar e eram especializados nesse tipo de área, mas acabaram, a partir desse know-how, enveredando para o tráfico de armas e drogas”, afirmou o delegado.
Mais de 35 fuzis foram apreendidos em duas ações
Durante o avanço das investigações, a polícia conseguiu interceptar pelo menos dois grandes carregamentos atribuídos ao grupo.
Em 18 de junho, em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba, policiais civis apreenderam aproximadamente 459 quilos de cocaína e crack, além de um fuzil calibre 5,56 mm, nove pistolas calibre 9 mm e 15 peças desmontadas de fuzil calibre 7,62 mm.
Segundo a investigação, pai e filho estavam fazendo o transbordo do material de um caminhão maior para um veículo utilitário. Onze dias depois, outro carregamento foi localizado em Ourinhos, no interior de São Paulo. Na ocasião, a Polícia Militar encontrou 18 fuzis, carregadores e uma grande quantidade de entorpecentes.
Somadas as duas ocorrências, foram apreendidos mais de 35 fuzis calibre 7,62 mm, segundo o delegado. Ainda conforme a PCPR, um armamento desse tipo poderia alcançar valores entre R$ 100 mil e R$ 150 mil depois de montado e colocado à venda em comunidades dominadas por criminosos.
Estrutura também tinha hangar e aeronave em Foz do Iguaçu
A estrutura investigada não se limitava ao transporte rodoviário.
De acordo com o delegado, o grupo tinha um hangar em Foz do Iguaçu, região estratégica próxima à fronteira, e uma aeronave. A investigação trabalha com a possibilidade de que drogas e armas chegassem à região pelo modal aéreo e, posteriormente, fossem transportadas por caminhões ou veículos menores.
Também foi identificada a compra de uma cota em um clube de voo no interior de São Paulo, pelo valor de R$ 989,5 mil. A PCPR ainda apura a aquisição da aeronave e a construção do hangar como parte da estrutura patrimonial utilizada pelo grupo.
Empresas movimentaram milhões
Além da logística, a operação mira o braço financeiro da organização. Segundo a PCPR, o principal investigado teria criado uma identidade civil fictícia para constituir uma transportadora, abrir contas bancárias, registrar veículos e realizar negócios de alto valor.
Um dos filhos teria utilizado estratégia semelhante e criado uma identidade paralela para abrir outras duas empresas. Uma delas funcionava na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, endereço que também foi alvo de busca nesta sexta-feira. A análise financeira realizada pela investigação identificou aproximadamente R$ 28,8 milhões em créditos considerados incompatíveis com a capacidade econômica declarada pelos investigados.
A transportadora apontada como núcleo logístico teria recebido R$ 2,5 milhões em 2025. Outra empresa ligada à família movimentou R$ 4,2 milhões em créditos entre 2025 e 2026, embora tenha declarado faturamento de pouco mais de R$ 34 mil. Um dos filhos teria recebido individualmente R$ 1.145.530,90 no mesmo período, incluindo mais de R$ 393 mil em saques em espécie e depósitos realizados em agências do Rio de Janeiro e de Angra dos Reis.
Empresa ligada ao Rio movimentou mais de R$ 17 milhões
A investigação também identificou uma ligação financeira entre o núcleo familiar do Paraná e uma facção criminosa do Rio de Janeiro. Segundo a PCPR, a conexão ocorria por meio de uma empresa formalmente registrada nos setores de serralheria e vidraçaria.
Somente essa empresa teria movimentado mais de R$ 17 milhões em créditos em 2025. Conforme a investigação, o negócio chegou a quitar à vista um veículo que posteriormente teria sido utilizado no transporte de entorpecentes entre Maringá e Curitiba. O responsável formal pela empresa, apontado pela polícia como encarregado do controle financeiro da facção, declarou renda mensal de R$ 1,5 mil, mas teria movimentado R$ 3.656.004,29 em créditos.
Dez pessoas foram presas em três estados
Ao todo, 10 pessoas foram presas na operação desta sexta-feira. As prisões ocorreram em Maringá, São Paulo e Curitiba. Outros quatro investigados não foram encontrados e são considerados foragidos. Entre eles estão o filho mais velho do principal alvo da investigação e três traficantes do Rio de Janeiro.
Para a PCPR, a operação busca atingir não apenas os responsáveis pelo transporte, mas também a estrutura financeira e patrimonial que dava suporte à logística. “É extremamente importante fazer com que isso não chegue e que esse poder bélico seja diminuído o máximo possível”, afirmou o delegado.
Segundo Assad, a investigação também busca atingir pessoas que não necessariamente fazem parte de uma facção criminosa, mas que prestariam serviços para manter a logística do tráfico funcionando. A operação segue com as investigações para localizar os quatro foragidos e aprofundar a apuração sobre o patrimônio, as empresas e a movimentação financeira atribuída aos investigados.
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